Depois que eles foram embora fiquei no quarto sozinha. Ficaria ali até o outro dia. Disseram que eu precisava de repouso. Sério mesmo, eu me sinto bem, apenas quando eu levanto, me sinto meio tonta. Mas nada de mais. Dá para eu ir para casa. A enfermeira falou que eu não fosse para a aula essa semana.
Hoje é terça-feira. Hoje seria o dia de minha morte... Mas foi hoje que eu renasci. Minha vida agora parece estar mais colorida. As coisas parecem ter mais efeito. As pessoas parecem ser mais importantes. Lágrimas descem. Elas descem quentes... Deus me perdoe por cada segundo que não soube dar valor a minha vida. Ela é tão boa. Paro para pensar em tanta coisa agora. E se eu tivesse levado um tiro e ficado com alguma seqüela? Paralítica? Tetraplégica? Cega? Surda? Muda? E se eu tivesse tido um AVC? Ou se eu ficasse em uma cama que nem um vegetal... dependendo de aparelhos - mais lágrimas escorrem... - Senhor, obrigada por eu ter saído desse sufoco... Obrigada por cada segundo que eu passo respirando, obrigada por poder andar, falar, ver, ouvir, obrigada por entender as coisas... Obrigada por ainda ter pernas, braços... Obrigada senhor por cada pedacinho de minha vida. Porque eu tenho tanto... e eu nunca havia notado. Minha vida é ótima... tanta gente no mundo vive só. E eu tenho uma família linda que sempre está comigo, tenho amigos, um namorado que me ama de mais. Senhor tantas pessoas não tem nada disso... - Mais lágrimas caem... - Apenas nesses momentos é que você dá valor a vida... É apenas nas horas em que você está perto de perder tudo, que lhes dar o merecido valor. - Minhas lágrimas agora começam a escorrer freneticamente, então rezo... - Agradeço a Deus durante um bom tempo por cada detalhe bobo da minha vida. Fico rezando... Em meu silêncio está o agradecimento, o pedido de desculpa e a vergonha... A vergonha de nunca ter notado o quanto eu era feliz, e apenas quando estive perto de morrer foi que pude dar valor. Não era para ser assim. Era para nós agradecermos a cada dia de vida... todos os dias devíamos parar durante uma hora, uma mísera hora de um dia de nossas vidas... apenas isso, para agradecer a tudo o que nos foi dado... agradecer por cada segundo que estamos aqui... na terra. Porque a vida é uma bênção, nós não sabemos, apenas descobrimos quando quase a perdemos. Levanto e olho pela janela, lá embaixo as pessoas passam... suas vidas não foram abaladas pelo o que me aconteceu, elas nem ao menos sabem. Cada uma possui uma vida e pessoas que amam... cada uma possui os seus problemas... cada uma tem as suas preocupações e felicidades... e é assim que somos, levando a sério coisas bobas, ficando felizes com coisas bobas... sem nunca conseguirmos enxergar a verdadeira felicidade. Que é o simples fato de estarmos vivos... simplesmente por haver um coração dentro de nós batendo... já é algo para comemorarmos. Então, obrigada Senhor. Por estar aqui hoje, tão bem... e no meio de tanto carinho que recebo... obrigada. Mais lágrimas escorrem... as enxugo e vou me deitar... preciso dormir.
-
Nossa o que é isso? Tá tudo escuro... E apertado... Tento tirar isso do meu rosto, mas não consigo, tateio e sinto um braço... Aii... Está faltando ar... Arrrrrrrrr... SOCORROOOOOOO!!! Me solta... SOCORROO... Começo a chutar para todo lado, nisso escuto:
-Aiii... Sardenta desgraçada.
WANESSA... CACHORRA...
Ela continua pressionando o travesseiro contra o meu rosto, ESSA DESGRAÇADA QUER ME MATAR SUFOCADA. Começo a dar chutes e soco para todo lado. É quando tenho uma idéia genial, pego as minhas unhas e aperto no braço dela, vou apertando com toda a força que eu posso. De repente ela solta... Tiro o travesseiro e respiro fundo, vaca... O quarto estava escuro mas eu podia vê-la, a luz dos postes lá fora, deixavam uma luz fraca dentro do quarto, vejo ela vindo em cima de mim... Então começamos a entrar na porrada como da última vez, começo a gritar:
-SOCORROO, ALGUÉM ME AJUDE... SOCORROOO!!
Escuto uma movimentação vindo de fora, e vozes, então continuo:
-SOCORRO, TEM UMA LOUCA AQUI!!!!!!!
Estamos nos batendo me distancio da cama, e a agulha que estava em mim, me passando o soro, sai com tudo. AIIIIIII. Como dói, me distancio e acendo a luz do quarto, ela estava descabelada, com um ar de louca, olha para o lado e vê uma seringa com agulha, ela vem em minha direção... Queria me atingir.
-SUA RATA FEDIDA! VOCÊ NÃO VAI TIRAR O ANDREW DE MIM – a seguro pelos cabelos enquanto a minha outra mão segura a mão dela que está com a seringa, olho nos seus olhos e falo – pois fique você sabendo que estou bem e de mais com o Andrew. Nós nos amamos e vamos ficar juntos... E nada do que você... sua louca... Faça para impedir vai adiantar...
Dou uma tapa na cara dela quando a enfermeira e seguranças entram, o enfermeiro vem e me acode, os seguranças a seguram, ela olhou para mim e gritou:
- Lucy, eu volto.
- Quando sair da cadeia? – grito
- Hahahaha... Eu sou de menor Sardenta. Não vou.
-Mas eu vou testemunhar contra você rata fedida. E do mesmo jeito que você foi adulta para tentar me matar, vai ser adulta para ir para a cadeia. Se eu alegar que você é altamente perigosa... você mofa lá – pude ver terror em seus olhos
- NÃOOOO... NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO...
E então a levaram. A enfermeira me colocou na cama, olho para o meu braço, estava sangrando muito, os dois, o ferido e o da serginga. Ele me viu olhando com terror para os meus braços:
- Fique calma. Isso vai melhorar. Agora eu preciso que você relaxe. Está muito tensa.
- Estou com medo. Esta louca vai continuar tentando me matar.
- Calma. Os seguranças vão levá-la embora. Ela vai ser presa. Mesmo sendo de menor ela ameaçou a vida de uma paciente.
- Eu acordei com ela me sufocando com um travesseiro.
- Sério?
- Claro. Depois que eu finalmente consegui tirá-la de cima de mim e então respirado, aí começamos a nos atracar no chão. E não foi a primeira vez.
- Não?
Comecei a contar a história toda, do Andrew comigo... Ela ria. E riu mais ainda quando contei como espanquei ela. Enquanto ela cuidava dos meus ferimentos com todo o cuidado possível conversamos... E conversamos... Então ela falou:
- Se quiser ligo para seus pais virem lhe buscar agora mesmo. Quer?
- Não precisa... posso dormir aqui mesmo. Amanhã bem cedo eles virão. - Ela sorri e concorda.
-
Papai abre a porta de casa e quando eu entro:
- SURPRESA!
Olho, ao redor, tinham bexigas penduradas, um bolo em formato de sol, uma mesa cheia de salgados e poucos docinhos, Georgie, Funnie, Djim, Petter (Rachel ao seu lado. Estão ficando), Rodney, Jerry, Sr. e Sra. Watson, Daniel, Andrew, Gina, Mike, William, Jeff, vovó... eu nem posso acreditar, todos estão aqui. Olho para a parede e lá havia uma faixa, escrito: ”Seja bem vinda de volta, Menina do sol.” Que lindo. Andrew vem até mim e me beija...
- Oi meu amor...
A confraternização estava ótima, assim como a comida, contei a todos sobre o segundo ataque da Wanessa, todos riram muito, de repente a campainha toca, vou e atendo, era Mina:
- O que faz aqui?
-É... Podemos conversar?
-Está bem... – olho para as pessoas que estavam lá, ninguém ia notar se eu desse uma saída rapidinho – vamos para os jardins.
Desço com Mina e lá ela começa:
-É... Lucy me perdoa?
-Poderia especificar pelo o quê? Porque são tantas coisas...
-Por tudo que te fiz de ruim. A Sophy me disse que te contou, mas que você não acreditou. Eu, Sophy e Dayanne apenas nos aproximamos da Wanessa para conseguir o que queríamos.
-Mas vocês não prestam mesmo, não é?
-Olha... Sabe como descobriram que foi a Wanessa quem armou teu seqüestro?
-Sei...
-Então sabe que Dayanne descobriu que Afonso é realmente um filho da mãe e Sophy a levou até a delegacia porque estavam gratas pelo fato de você a ter ajudado, mesmo depois do que ela fez com você. Não é?
-Disso eu não sabia.
-Nós não somos pessoas ruins. E eu sou sua amiga ainda Lucy. Eu me tornei “amiga” da Wanessa porque queria o Petter, apenas por isso. Ela me disse que apenas me ajudaria... Ela apenas se convenceu de que eu gostava dela quando eu tive que ser falsa com você. Ela disse que eu tinha que provar que estava do lado dela e não do seu. As meninas e eu achamos que ela tem inveja de você. Na verdade temos certeza. E aí quando você conseguiu em dias o que ela tentou em anos, que foi o Andrew. Ela só faltou enlouquecer. Ela é doente por ele... É obsessiva... Me perdoa Lucy. Eu fui estúpida. Coloquei um cara na frente de nossa amizade. Eu sei que não vai me perdoar fácil assim... Mas eu precisava falar... Adeus Lucy.
E ela vai indo embora... Por alguma razão eu queria acreditar... É quando lembro: É melhor se arrepender por algo que tenha feito do que por algo que não fez.
-Espera. Mina.
Ela olha para mim, corro e a abraço.
-Vamos ver... se for mentira te dou uma surra como dei na Wanessa.
Rimos juntas e subo com ela para a festa, ela pára e diz:
-Mas Lucy. Lá estão apenas seus amigos... É uma confraternização para pessoas próximas... E o Petter está lá com Rachel.
-Mina. Nunca é tarde de mais para se consertar um erro. Não custa tentar... Vem. Precisa conhecer o irmão do Andrew. É lindo e tá solteiro...
-Ah... Assim a coisa já muda, não é?
Sorrimos juntas e subimos. O resto do dia ocorreu numa paz incrível. Depois que todos foram embora, ficou apenas a família de Andrew lá em cima, conversando com a minha, desço com Andrew e nos sentamos no jardim:
- O jardim do seu prédio tem flores. O de lá de casa é apenas terra.
- Mamãe que ajuda o zelador a cuidar delas.
-Tem gira-sol?
- Não sei...
- Lucy... No dia que você foi levada... Eu queria continuar dali... – eu olho diretamente para seus olhos, ele fala – Lucy. Eu te amo.
- Andrew. Eu te amo.
Nos beijamos. Naquele momento foi como se algo mágico estivesse acontecendo de novo. Paramos o beijo e olhei ao nosso redor, havia uma espécie de brilho nos envolvendo, era rosa... branco... vermelho... Não sei ao certo, ele pairava sobre nós... Parecia magia... Não parecia não. Tenho certeza de que era magia.
De Cereja
Conseguirão eles finalmente encontrar a paz depois de séculos?
terça-feira, 31 de março de 2009
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