De Cereja

De Cereja
Conseguirão eles finalmente encontrar a paz depois de séculos?

terça-feira, 24 de março de 2009

Capítulo 40 - O bilhete

Estamos hospedados em um hotel quatro estrelas, papai e eu estamos aguardando o táxi para nos levar para o aeroporto. Graças a Deus devido ao meu troféu de ouro que ganhei para a Inglaterra, ganhei duas passagens de avião de graça para qualquer lugar da Inglaterra. Este torneio de judô me deixou com uma saudade imensa, das minhas coisas... meu quarto, minha casa, Gina, Mike, Benoit, e... Lucy. Ainda não consegui tirá-la de minha cabeça. Eu disse adeus. Foi um adeus definitivo. Eu pude ver, ela não vai deixar aquele orgulho de lado nem tão cedo. Não vou ficar esperando pelos caprichos dela. Está agindo como criança... Nossa nunca pensei que poderia sentir tanta falta assim dela... dela sorrindo... dela falando... dela com raiva... dela dormindo... do sorriso dela... do olhar dela... do beijo dela... Nossa isto está acabando comigo. Durante toda a semana andei pensando nela, mas agora de volta as aulas estou realmente decidido que não quero mais saber dela. Ela me provou que nem sempre o coração estava certo. Coitado dele... está todo rachado, e posso sentir o sangue escorrendo por ele em alguns lugares. Nunca pensei que dor de amor doesse tanto... e dói mesmo. Meu devaneio é interrompido por papai:

-Campeão? – deu para me chamar assim agora.

-Pai, pára.

-Por quê? É um campeão mesmo. Agora vamos que o táxi acabou de chegar.

Concordo com a cabeça e ambos pegamos nossas bagagens e descemos as escadas do hotel. Até que era bem confortável. Toda a viagem até o aeroporto não conversamos muito, apenas discutimos sobre alguns golpes durante as minhas lutas, era apenas sobre isso mesmo que conversamos a semana inteira, eu já estou começando a ficar cheio de judô. O torneio iria ao ar na televisão apenas hoje. Ainda bem que não acompanharam cada luta ao vivo. Nunca quis aparecer na televisão. Não vejo graça.

-

A viagem de avião não durou muito, acho que uns 25 à 15 minutos. Chegamos no prédio, e cumprimento o porteiro, nossa como é bom estar em casa, passo pelo jardim que apenas tem areia e lembro de quando estava ensinando Lucy a andar de bicicleta, ela sorria e brincava, parecia uma criança... AHH, balanço a cabeça como se quisesse espantar um mosquito que teimava em ficar na minha cabeça. Papai e eu entramos no elevador.

-Nossa pai – indago – não vejo a hora de entrarmos em casa... estou morrendo de saudades da Gina.

-É meu filho. Também estou.

Entro em casa, e recebo uma festa de Gina e Benoit.

-Oi minha linda.

-And. Estava com saudades de você! – ela me abraça forte.

-E aí garotão – pego o Benoit no colo – o Mike cuidou bem de você?

Devolvo Benoit ao chão e abraço meu irmão, no fundo, no fundo, sei que ele sentiu a minha falta. Depois sigo em direção ao meu quarto. Nossa, quero mesmo tirar um bom cochilo, e só acordar amanhã. Ao entrar no meu quarto sinto um cheiro que me é familiar, mas não consigo reconhecê-lo de imediato. Olho para a minha cama, havia um gira-sol murcho que estava dentro de um papel dobrado, e ao lado uns pacotes com presentes. Quem esteve no meu quarto? Sento-me e pego os presentes, havia um bilhete colado na embalagem: “Espero que goste. São para você desenhar mais. Tem um talento incrível”. Abro, lá haviam lápis, lápis a base de carvão para sombreamentos, folhas para rascunhos, entre outras coisas que apenas desenhistas mesmo possuíam. Eu sempre quis aquilo tudo, nunca tive a oportunidade de sair para procurar, quem quer que seja, parece que havia adivinhado. Pego o papel onde estava o gira-sol e começo a lê-lo:

“Bem... Certa vez você havia me dito que o que quer que eu fosse te dar, teria que ter sido o que eu achasse melhor... Bom, acho que você deve continuar a desenhar, tem um talento formidável. Espero um dia ainda poder ver mais de seus desenhos. O gira-sol, eu achei que iria dar um toque mais pessoal às coisas, achei que ao vê-lo fosse lembrar de mim. Eu vim aqui na sua casa hoje dia 30 porque é o seu aniversário. Parabéns! Achei que poderia aproveitar e pedir desculpas por ter sido burra e não ter enxergado antes que na verdade eu sempre fui apaixonada por você. Bem, sei que agora já pode ser tarde de mais, sei que me disse adeus. Mas eu precisava apenas dizer isso, o resto... Bem... Eu realmente não espero que apareça a minha porta dizendo que me perdoa e que tudo poderá voltar a ser como antes. Não... Eu tenho ciência que o que fiz não seria merecedor de desculpas, agi como uma criança, e até estava pensando como uma. Mas foi apenas tarde de mais que descobri que o que sentia por você criança alguma sentiria. Queria que soubesse Andrew que se eu pudesse voltar ao tempo, eu não mudaria nada... Porque foi apenas assim... Apenas sentindo que te perdi que pude ver que era isso que eu temia. Vovó me falou que eu acusei você de ter mentido para mim, mas que na verdade a grande mentirosa fui eu. Mas eu falei a ela: -Vovó, mas por mais que eu não aceitasse, eu sentia os sentimentos que eu havia dito.
E então foi quando ela falou algo que mexeu comigo: -Não adiantava falar que sentia, algo que realmente sentia, sem saber que sentia.
Ficou meio confuso, mas acho que dá para entender. Eu não sabia Andrew, eu não sabia que não podia viver sem você... Lembra quando me falou que eu não poderia parar se começasse a me apaixonar? Bem, acho que pelo fato deu não ter podido parar, deu não querer aceitar que estava com medo de continuar, foi que aconteceu toda essa confusão. Mas no fundo, no fundo, acho que tudo isso foi necessário, porque se não fosse assim, acho que demoraria de mais até que eu finalmente me tocasse que... Não adiantava ser o sol que ilumina, se não tem a quem iluminar. Só deixei este bilhete porque eu realmente precisava que você soubesse dessas palavras. O baile de máscaras é amanhã. Se você aceitou o meu humilde e sincero pedido de desculpas, me encontre lá, estarei de fada, com um vestido azul.Se não... Não precisa me procurar... Mesmo que ainda falte falar algo para mim, não queria falar com você depois disso, para mim seria algo muito doloroso. Então, acho que é isso. Não pense que foi fácil escrever isso. Não foi. E aquela garota confiante que você conheceu sumiu, e perdeu a certeza das coisas, porque ela começou a sentir algo tão grande que a fez ficar confusa e misturar tudo, mas agora que ela já entendeu e assimilou as coisas com calma, ela está de volta. Ah, por sinal, eu peguei esta folha da sua impressora, espero que não se incomode. Eu não sabia que estaria fora até a sexta-feira. Bem, não vou ficar aguardando ansiosa por você no baile. Porque algo me diz que você não aparecerá para mim. Mas tudo bem... Eu posso entender.
Obs.: Eu me identificarei como Julieta, no baile.

Menina do sol.”

Ao terminar de ler não posso acreditar. Lucy me pediu desculpas. Desculpas que realmente parecem ser sinceras... A minha Lucy voltou. Como estou feliz em ler isto... Nem posso acreditar! O sol que ilumina a minha vida. Ah Lucy. Claro que eu te desculpo. Nossa! Ela enxergou. Enxergou finalmente que eu a amo de verdade. Enxergou que eu não menti em nada que disse a ela. Ah... Lucy! Que saudade. E ela me lembrou de algo importante. O baile de máscaras. Havia esquecido totalmente, preciso apenas achar uma máscara, vou com um smoking preto. Sei que parece meio formal de mais, mas o importante é que não me reconheçam e a minha máscara cobrirá apenas os meus olhos e nariz. Acho que ficará bom. E minha máscara tem que ser branca e completamente simples.
Estou começando a imaginar Lucy no baile... Ela estará radiante... Como o sol.

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