- Não Beatrice. Brigada mas estou ótimo aqui.
Hoje é domingo, último dia que passo aqui. Daqui a pouco é a hora do almoço, se fosse em outro dia eu estaria adorando ficar por aqui, afinal todos os meus primos estão na água inclusive Gina com os meus primos crianças ainda... mas estou doido pra voltar para casa para ligar para a escola perguntando o telefone da aluna: Lucy Rondon. Preciso ligar para ela para saber se ela concordou ou não. Porque afinal a semana começa no domingo, pretendo começar hoje mesmo. Enquanto brinco com Benoit vejo o meu avô caminhando em minha direção, adoro conversar com meu avô, ele parece ser carrancudo com um bigode branco e grosso, mas quando abre um sorriso largo e abre os braços a expressão de carrancudo some, ele chega e senta-se à mesa, levanto-me e coloco Benoit no meu colo que fica olhando para meu avô atentamente, parecia até que também queria conversar. Limpo as mãos de areia e me endireito, é quando ele começa:
- Um lindo dia hoje não?
- Realmente, perfeito para curtir com os netos e a família. Pensei que fosse para o mar vovô.
- Eu até ia, mas acho que seria melhor ficar conversando com meu neto. – sorrio, mas sei que ele quer apenas jogar conversa fora.
- Vô. Como o senhor conheceu a vovó?
- Nós só ficamos juntos na universidade, mas nos conhecemos no colégio. Estava no colégio na hora do intervalo quando vi, linda, com os cabelos negros esvoaçando, eram imensos, batiam no quadril, ela estava rindo com as amigas, quando passou na minha frente eu a parei e disse que adoraria sair com ela porque ela era a menina com as curvas mais belas que já vi. Hahaha – kkkkkkk, meu avô é muito sem noção – isso hoje ainda é um insulto imagine naquela época? Depois desse dia ela não suportava nem que eu respirasse... Acho que ela imaginou 1001 maneiras de me matar durante todo aquele tempo – parece até alguém que eu conheço... e olhe que eu nem usei essa abordagem – até que um certo dia, eu resolvi pedir desculpas, sinceras desculpas e saí de lá com ar de fracassado sabe... EU sabia que ela jamais ia me dar uma chance, porém ela olhou para mim e me abraçou, disse que era um ato de coragem imenso pedir desculpas, e desde então foi só questão de tempo, não namoramos logo porque ela já tinha namorado e gostava dele, porém com o tempo eu a fui conquistando e somente na universidade, que coincidentemente fizemos a mesma universidade, foi que ela finalmente cedeu e eu a beijei.
- Espera aí vô. O senhora está me dizendo que só a beijou na universidade?
- Hahaha, para você é estranho, mas na minha época as coisas eram diferentes, não existia essa estória de ficar não.
- Ah é mesmo. Não sei como vocês conseguiam agüentar. Mas desculpa a invasão de privacidade vô. Mas quando foi que vocês... tiveram a primeira noite de vocês?
- Hahah, na lua de mel Andrew. Só depois de casar – eu queria que ele dissesse uma coisa dessas pra Beatrice.
- Hahaha. Acho que nasci na época certa mesmo.
Olhei para o relógio, e já estava na hora do almoço, despeço-me do meu avô e agradeço a conversa, pego Benoit e sigo até o quarto, vou arrumar as minhas coisas e as dele, para depois do almoço finalmente irmos embora.
Coloquei a minha mala e a de Benoit na cama, decido que vou para casa apenas de bermuda porque estava um calor infernal. Ao sair do quarto com Benoit nos meus calcanhares dou de cara com Gina deitada no chão com um pedaço de papel e um giz de cera, estava desenhando algo que parecia um barco, agachei-me e falei com ela:
-Está desenhando os barcos do vovô Gina?
-É, o vovô disse que quando voltarmos ele vai andar de lancha comigo, e vai até lá beeeem longe. Disse que quer me levar lá no horizonte.
-É mesmo? Eu quero ir com vocês está bem?
Gina levanta-se e fica em pé, mais ou menos da minha altura agachado, ela segura o meu rosto e fixa seus olhos nos meus, passamos um bom tempo assim, verde no verde. Depois de algum tempo ela sorri e me da um beijo no nariz, estou intrigado:
-O que foi Gina? Dizem que quando se olha lá dentro dos olhos se vê o coração da pessoa.
-Eu vi And. Eu vi seu coração. – como assim? Ela tem apenas 5 anos.
-Como assim Gina? Viu meu coração como?
-No seu olho And. Lá dentro – ela gesticula com seus dedinhos gordinhos. Resolvo entrar na brincadeira.
-É mesmo? Bem la dentro?
-Foi.
-E você viu alguma coisa legal?
-Vi sim.
-Você viu o quê?
-Vi que tem uma menina morando no coração do And.
-Como assim Gina? Uma menina? Como ela é?
-Tem uma menina morando no coração do And. Papai me disse que a mamãe mora no coração dele, e que ele a ama. Então o And ama a menina?
Agora não estou entendo nada, como ela sabe dessas coisas? Pergunto novamente:
-Como é a menina Gina? Como é a menina que mora no coração do And?
-Ela é que nem o sol.
-Que nem o sol?
-É, brilha como o sol.
Terminada a frase ela sai correndo pelo corredor e desce a escada levando consigo minha dúvida. Como assim: “brilha como o sol.” Será que ela estaria falando de Lucy?
Passo todo o almoço com essa dúvida na cabeça, seria de Lucy? Só poderia ser. E mesmo se fosse como Gina conseguiu ver? É só um ditado popular essa besteira de “Os olhos sã a janela da alma” qual é?... Está fora de questão que Gina consiga olhar dentro das pessoas, além disso ser uma coisa impossível, ela tem apenas 5 anos.
3 horas em um carro e finalmente estou em casa, desço do carro com minha mochila, a de Benoit e a de Gina, enquanto ela segura o guia da coleira de Benoit. Vou andando em direção ao hall, que mais parece uma sala de estar, quando entro encontro sentada uma cabeleira loira, era Lucy. Mas o que ela fazia sentada no hall do meu prédio?-Lucy? O que faz aqui?
Ela levanta a cabeça e me olha assustada, como se eu fosse alguma espécie de monstro, havia esquecido de seus olhos, como eram lindos, nesse tom de chocolate que eles possuem, mas particularmente hoje eles estavam inchados e vermelhos, ela levanta-se e pergunta:
-O que eu faço aqui? O que você faz aqui?
Ela me olhou de cima a baixo e ficou vermelha. É quando noto que estou apenas com uma bermuda e cheio de bolsas. Meu pai, Mike e Gina entram no hall, cumprimentam Lucy com um boa tarde, Gina para com Benoit olha fixamente para Lucy depois sorri, olha para mim e fala bem baixinho:
-Brilha como o sol. – Sabia. É a Lucy.
E entra no elevador com papai e Mike. Antes de subirem papai me pergunta se vou subir, mas respondo:
-Sim, daqui a pouco. Leve essas bolsas aqui.
Entreguei as malas que estavam comigo e enquanto eles subiam em direção ao 10ª andar me virei para Lucy:
-Bem... Eu moro aqui. E então... O que faz aqui?
-Hã? Mas como assim mora aqui?
-Morando oras. Respondi a sua pergunta. Sua vez de responder.
-Bem... – ela funga... espera... ela estava chorando. – eu vim visitar a minha avó. Ela mora aqui. Na verdade ela se mudou há pouco tempo, e hoje é a primeira vez que venho. Meus pais ficaram lá em cima conversando, mas eu resolvi descer, afinal conversa de velhos. Sabe o básico, como anda o emprego, a vida, os filhos, não preciso ficar lá... Mas nunca pensei te encontrar aqui.
-Ahaa.. Viu isso é o destino.
-Ah corta essa.
-Sério, eu ia ligar para o colégio pedindo o seu telefone, afina hoje é domingo, começo de uma nova semana, precisava saber se aceitou a minha proposta.
-Não acredito que ainda lembrou disso.
-Claro, isso não saiu da minha cabeça nesse fim de semana. Mas ta O.K. eu espero a resposta até amanhã. Mas agora me diz, porque você tava chorando?
-Hã... Mas como assim chorando?
-Você fungou, está com os olhos vermelhos e inchados e o rosto parece que estava molhado.
-Fala sério. Vai adivinhar a cor do meu sutiã também?
-Hãn... – faço cara de dúvida e começo a olhar para os seios dela.
-Pára, seu ridículo. – ela esta rindo. Consegui.
-Esta bem, essa esta difícil, mas um dia descubro. Continuando... Porque estava chorando?
-Coisa minha Andrew. Não perca seu tempo com meus problemas.
-Não estou perdendo tempo algum.
-Não dá não Andrew. Te prometo que conversamos amanhã está bem. E te darei a reposta dessa sua proposta ridícula amanhã também.
Me aproximo dela, estou preocupado, ela arriscava começar a chorar de novo, chego mais perto e a abraço, era um abraço solidário, ela começa a chorar de novo, mas logo se afasta e enxuga as lágrimas, me pede desculpas, despede-se e vai para o jardim. Resolvo que já era a hora de subir.

Um comentário:
Foi bom demais esse capítulo, gostei do avô do Andrew, cara-de-pau demais ele. Ri muito da parte do sutiã, pelo jeito ele herdou esse traço de alguém da família.
Também fiquei curioso por causa da Lucy chorando, embora ache que seja por causa da Lily. E quanta sabedoria da Gina!
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