“Ela se aproximou de mim, parecia que ia me beijar, seria bom de mais para ser verdade, a medida que ela se aproximava seu cheiro de cereja aumentava, finalmente ela chega à minha orelha e sussurra:
-Gosta de desafios?
-Adoro.
-Resposta certa.
-Pergunta certa.”
Essa cena não sai de minha cabeça, essa garota não sai de mim. Eu não posso acreditar que ela ache que eu vá ficar com Wanessa, e Mina quer outro cara... pelo amor de Deus... aquelas meninas não valem nada, se oferecem pro primeiro que aparecer, passam um papel horrível... já Lucy não... Lucy, oh Lucy... Porque você é tão diferente? Porque seus olhos parecem ser tão transparentes mas você tão misteriosa? Como você consegue ser irritante mas ao mesmo tempo engraçada? Passar apenas alguns segundos com você já me fazem perder os sentidos e me fazer misturar os contrários e transformar o quadrado no redondo. Eu ainda vou saber Lucy... ah vou, ainda vou saber qual o gosto da tua boca... mas você me magoa a cada vez que coloca o que sinto no chão... a cada vez debocha. Mas vou te provar Lucy, vou te provar que não sou o que pensa.
Meu devaneio é interrompido ao ouvir algo na minha porta, como alguém arranhando a porta, abro e lá está ele, Benoit, meu cachorro, é um Beagle, nem um ano tem, ele devolveu a vida a nossa casa depois que... depois daquele acidente que me tirou a minha melhor amiga, que me tirou a única pessoa com quem conversar, a única pessoa que me fazia ver que, ser eu mesmo, valia mais a pena do que ser qualquer outra pessoa na face da terra... minha mãe. A vida desde então não vem sido fácil, eu sou a pessoa mais próxima da minha irmãzinha Gina de apenas 5 anos... Tive que dizer a ela que a mamãe foi morar com as estrelas. E meu pai, William, acho que é como se ele não tivesse mais motivação, chega do trabalho cansado, janta e vai ver TV, algo meio que automático, ele se transformou em um robô, já o Mike, meu irmão mais velho (ele tem 24 anos), parece que para esquecer do que aconteceu resolveu ocupar todo o seu tempo, com o amado Judô, agora ele conseguiu se associar a academia, é professor de crianças, e eu pratico judô lá, consigo algum desconto. Ela faleceu nessas férias de verão, foi em julho. Depois daquele dia parecia que nada mais ia ser como antes, e eu estava certo, nada foi. A casa ficou as moscas, meu pai que ainda chegava a trocar algumas palavras de carinho comigo, agora nem isso, simplesmente me pressiona para que eu seja um filho prodígio, um filho perfeito, quer que eu seja ótimo no judô, nas notas, e quer que eu viva pegando mulher adoidado, acha que para eu provar que sou macho tenho que aparecer com muitas, e ainda por cima exige que eu seja ótimo filho em casa também, além de que ele vive me lembrando que se eu for para Cambridge eu me darei bem, porque ele não foi, e diz que não tem a vida que queria ter, ele disse que não foi para Cambridge porque nas férias ele havia conhecido mamãe e se apaixonado. Ele disse que resolveu seguir o coração, e que agora tinha uma vida infeliz, e acha que devemos ir para lá. O Mike não foi, e ele vive falando isso para ele. Toda vez que vê um panfleto de lá, ele logo vem me mostrar, ele não quer que eu tenha uma vida, ele quer que eu tenha a vida que ele queria ter, ele vive me dizendo como será a minha esposa, qual o carro que eu vou comprar e até como vai ser a minha casa... é um inferno.
Faço carinho embaixo da orelha de Benoit, fui eu quem deu este nome, Benoit é francês. Para falar a verdade eu não quero ir para Cambridge... quero ir para a França tentar uma vida de artista, não quero me gabar nem nada do tipo... mas eu até que pinto bem, claro que nunca falei nada para meu pai nem para meu irmão, mas Gina adora os meus desenhos, de vez em quando pego ela tentando fazer parecido, normalmente desenho no caderno da escola, meu pai nunca compraria uma tela e um cavalete para mim, então tento me conformar em fazer desenhos de bonecas para a Gina também... Mamãe adorava os meus desenhos... Dizia que eu ia virar um artista. Depois que ela se foi. Mas eu não desisti da vida não, quero conseguir tudo com o que sonho para provar ao meu pai que vou ter a minha vida e não a dele.
Ouço alguém batendo a porta e é ele:
- Andrew? Está acordado?
- Claro pai, diga.
- Arrume suas coisas que vamos viajar agora à noite.
- Mas agora? Para onde?
- Hoje é o primeiro fim de semana desse mês, não sabe que sempre vamos à casa de seus avós.
- Ah, sim claro, já vou me arrumar. E vou levar Benoit.
- Está bem, mas você cuida dele.
- Ta O.K. pai.
Levanto da cama e Benoit se afasta, pego a minha mochila mais antiga e começo a jogar algumas mudas de roupas de qualquer jeito nela, sabe, organização nunca foi bem minha melhor qualidade. Depois olho para Benoit, ele abana a cauda, preciso achar alguma bolsa para colocar as coisas dele, e claro tem que ser pequena. Falarei com quem entende disso.
- Gina...? Posso entrar – vou ao quarto da minha irmã, como ela é uma criança acredito que tenha uma bolsa velha e pequena para emprestar ao pobre Benoit.
- Pode entrar.
- Gina você por acaso teria alguma bolsa azul ou verde, que você não use mais.
- Por que? Você está precisando de uma bolsinha é Andy?
- Haha, não Gina, é o Benoit não sei onde colocar as coisas dele. Por isso pensei que talvez você pudesse dar alguma bolsa para ele, afinal as minhas são muito grandes.
- Haha... Está bem. Mas chame o Benoit, para que ele mesmo escolha.
Sorrio e confirmo com a cabeça, chamo por ele, ele vem correndo e adentra o quarto de Gina, as vezes acho que ele entende o que digo. Gina coloca umas cinco bolsas de diferentes tons variando entre azul, verde, rosa e amarelo... Como uma menina nessa idade já tem tantas bolsas assim? Acho que eu mesmo só tenho duas e olhe lá. Benoit parece hesitar mas ele termina optando por uma verde de tamanho razoavelmente pequeno. Agradeço a Gina com um beijo na cabeça dela, pego a bolsa e sigo ao meu quarto. Recolho os pratos de comida dele, brinquedos, e até uma camisa que ele tem com a bandeira da Inglaterra.
- Andrew, não te contei não é?- O quê pai?
- Que Beatrice estará lá.
- Não, não havia me falado. Mas o que é que tem? Ela não vem para cá há anos mesmo.
- Ah, Andrew, estamos só nós quatro aqui no carro... Pode falar, você ainda tem alguma paixãozinha por ela não é?
- Não pai – começou – não tenho nada haver com a Beatrice, eu era afim dela quanto tinha uns 13 anos pelo amor de Deus. Eu vou fazer 19. Não acha que já se passou tempo o suficiente para amadurecer não?
Papai adora ficar me lembrando que fui apaixonado pela Beatrice, ela é mais velha que eu dois anos, minha prima, filha do irmão mais velho de meu pai que fora do exército. Uma coisa não posso negar: a Beatrice é linda, cabelos pretos pelo ombro, um belo par de olhos verdes, pele bronzeada, curvas maravilhosas, ela é tudo o que um cara poderia desejar... e eu a tive. Na verdade eu tinha 14 anos quando tive algo com ela, algo que ninguém sabe, nós ficamos e transamos, foi a minha primeira vez, depois disso nos encontramos as escondidas mais umas 3 vezes, e transamos em todas elas. O único problema é que ela não gostava de mim, só se divertia e eu como um bobo apaixonado fui me deixando levar... muita estupidez. Depois ela se despediu de mim há uns 3 anos e desde então ela saiu viajando pelo mundo e nunca mais voltou a ver a família. Não sei mais como ela está, se bonita ou feia, se continua com aquele corpo e aquele sorriso que leva qualquer um para a cama. A única pessoa que sabe disso é o Mike, quando ele soube me contou que também transaram, hahaha, rimos muito, ela dá para quem aparecer... é mulher só pra isso mesmo. A última vez que transei foi com minha última namorada ano passado. Ela não é da escola, até porque não queria que ninguém ficasse sabendo, era meio que escondido do colégio, os caras ficariam me atazanando com detalhes e querendo conhecer, o nosso rolo nem era tão sério assim, acho que baseava-se a apenas algumas palavras e depois sexo. Nós dois concordávamos em permanecer daquele jeito, mas ela disse que achou um cara bacana com o qual queria algo sério e então terminamos. Um homem não consegue ficar muito tempo sem uma mulher, é natural nosso. Claro que venho sentindo muita falta, mas nada que me faça subir pelas paredes, sou um cara controlado, por enquanto minhas companheiras são as revistas. Não estou tão ansioso para ver a Beatrice não, ela me enoja.


Um comentário:
Continua surpreendendo a cada capítulo... Foi muito bom conhecer o outro lado da relação Lucy-Andrew. Ele é muito diferente do que a Lucy pensa dele, o achei até um pouco inseguro, e que vida dificil ele tem! Mas ele tá certo quando disse que não vai desistir, gosto de pessoas batalhadoras assim.
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